A HISTÓRIA DA PARTEIRA CLEMENTINA AGATTI
Daiane Roso Carini
Tânia Maria Agatti Roso
Atualmente vivemos em um mundo que esta em constante evolução, sobretudo para a área da medicina, pois vários são os avanços das pesquisas, descobertas de novos tratamentos para doenças, novos remédios e novas áreas de estudo da medicina surgem a cada dia. Contudo, não podemos renegar nosso passado que foi de muito sofrimento e aprendizado para que pudéssemos chegar aos dias atuais com resultados visíveis a todos.
No município de Constantina, a história não difere muito da grande maioria dos municípios, sabemos, pois que a colonização e ocupação da região Norte do Rio Grande do Sul ocorreu a partir do final do século XIX, com a implantação das colônias públicas e privadas. Desta forma os povoados recém-criados possuíam inúmeras dificuldades, dentre elas a questão do atendimento médico e hospitalar, sendo que para ter acesso a esse serviço era necessário deslocar-se para outras regiões como Palmeira das Missões ou Passo Fundo e as condições financeiras não permitiam pagar um médico, precisamente às pessoas dependiam muito de parteiras, curandeiros, benzedores etc.
Clementina Pires Agatti nasceu em 09 de novembro de 1897, na cidade de Roca Sales distrito de Estrela. Filha de Serafim Pires e Josephina Veneigue Pires casou-se com André Agatti no dia 05 de junho de 1926 e foram morar em Guaporé, anos mais tarde; por volta de 1929 mudaram-se para Carazinho e abriram uma casa comercial. Foi na cidade de Carazinho que Clementina, aprendeu o oficio de ser parteira, pois era uma pessoa de muita fé e dedicou-se muito a profissão escolhida.
No dia 15 de Janeiro de 1937 André, esposo de Clementina comprou terras em Constantina (Taquaruçú), era uma picada onde passavam os tropeiros, mas somente em 25 de fevereiro de 1938 é que vieram residir no local. Ao mesmo tempo em que plantavam as terras possuíam uma hospedaria e casa comercial.
Paralelamente as suas obrigações de cuidar da família dona Clementina, não tinha sossego, trabalhava dia e noite, pois sua fama de parteira profissional tinha se espalhado pela região. Além disso, Dona Clementina, realizava partos a domicilio, fazia longas viagens a cavalo e mantinha em sua hospedaria um quarto especial para receber as mulheres que estavam impedidas de dar a luz em suas próprias casas como, por exemplo, mães solteiras e viúvas, visto que na época a mulher sofria grande preconceito e não possuía voz ativa.
Dona Clementina, realizou mais de dois mil partos em quase 64 anos de profissão, atendeu mulheres de fazendeiros, comerciantes, bancários, trabalhadoras rurais, enfim atendia quem precisasse de seus serviços, nunca dizia não para ninguém, eram poucas as vezes que recebia pelos partos que realizava, pois não cobrava pelos serviços. Em Constantina, não foi a única parteira a ter a carreira tão longa, mas certamente foi a que mais teve prestígio e reconhecimento, acresça-se a esses fatos que médicos lhe procuravam para saber algumas práticas, pois era considerada uma mulher muito sábia. É verdade que ela não sabia ler e escrever, todavia no que se referia aos conhecimentos de mundo e, sobretudo os métodos que utilizava para curar o umbigo, a dieta alimentar e o chamado resguardo que ela recomendava a suas pacientes davam resultados positivos e seguros.
Segundo relatos de algumas pessoas houve famílias que tiveram todos os seus filhos com a Dona Clementina, como por exemplo: a senhora Alvina Marcolan, teve 8 filhos, Adeles Salvador Madalóz teve 13 filhos e Colorinda Menegazzo Giacomini, de seus 10 filhos, 8 ela teve com o auxilio de Clementina.
No período de 1975, Dona Clementina, pelo fato da idade e por compreender que as mulheres precisavam ir ao médico, pois cada ano que passava surgia mais dificuldades nos partos, o aumento de aborto, a necessidade de acompanhamento no período gestacional, a realização de exames etc., deixou de lado sua profissão, contudo, mulheres ainda lhe procuravam para auxiliar os médicos e as pacientes a rezar.
Dona Clementina, veio a falecer recentemente, no dia 30 de maio de 2010, aos 105 anos de idade (provavelmente possuía mais idade, pois na época em que foi registrada era uma menina grande, segundo relatos Clementina possuía 113 anos). Deixou 09 filhos, netos, bisnetos, tataranetos e tetranetos.
É inegável a importância da profissão de parteira para a sociedade da época e a história de Dona Clementina faz parte da história de muitos constantinenses através da sua profissão, deixando de lado interesses pessoais, familiares para dedicar-se em prol da sua comunidade, do coletivo e social.
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